aulas de gurudeva

 

 
O Vaishnava é Superior as Escrituras.

Srila Sridhar Goswami Maharaja

Na prática, temos que entrar em contato com o serviço a um Vaishnava. Mas onde, quem servir? Não posso entrar em contato direto com Ele. Quem posso servir? A forma do Senhor como Deidade, o vigraha está aí, o sastra está aí; mas essas coisas são superficiais num sentido. Encontramos a substância real em um Vaishnava, em seu coração. Dharmasya tattvam nihitam guhayam. O conceito de Krsna, Krsna como Ele é, conhecimento e amor, nós encontramos ao vivo dentro do coração de um Vaishnava que direciona todas atividades para Ele, para Seu serviço.

A fé nos devotos e nos Vaishnavas nos concede a ajuda mais substancial. Essa posição não é oscilante, mas firme. Quem tem fé nos Vaishnavas, alcança a devoção de caráter tangível. De outro modo, só com a fé abstrata no Senhor, sem fé nos devotos, somos apenas principiantes no estágio de kanistha-adhikari. Essa é uma plataforma insegura. Nossa devoção alcança um padrão seguro quando conseguimos desenvolver fé nos devotos, e reconhecer sua importância. Os devotos estão acima até mesmo do sastra , as escrituras. O estágio tangível quando se desenvolve nossa fé real nos devotos é o estágio intermediário, madhyama-adhikari.

No Vaisnava, a verdade está mais animada do que no vigraha (Deidade), no tirtha (lugar sagrado de peregrinação) ou no sastra (escritura). Nós encontramos uma conexão direta com Krsna na consciência de um Vaisnava. Nós encontramos o que regula todas suas atividades e o que o tira da atração mundana, e assim o guia em direção a algum destino desconhecido e o mais desejável.

O Senhor o faz mover-se em uma direção específica que não pode ser traçada por nenhuma perda ou ganho deste mundo. O que é isso? "Eu estou aí. Não estou nem mesmo em Vaikuntha, nem nos corações dos yogis. Mas onde Meus devotos cantam com prazer sobre Mim, lá que Eu estou". (Mac citta mad gata prana bodhayantah parasparam kathayantas ca mam nityam tusyanti ca ramanti ca). "Os pensamentos de Meus devotos puros habitam em Mim, suas vidas estão plenamente absortas em Meu serviço, e eles sentem grande satisfação e bem-aventurança sempre a se iluminarem reciprocamente e conversarem sobre Mim" (Gita 10.9).

Krsna diz para Arjuna que ele é Seu devoto favorito. "Eu prometo a você que nunca irei enganá-lo nem ao mínimo. Eu afirmo que sou tudo e Eu não vou enganá-lo. Manmana bhava, lembre-se sempre de Mim, mad bhakto, seja Meu devoto, sirva-Me. Manmana bhava mad bhakto, mad yaji, qualquer sacrifício que fizer, faça-o por Mim. Mad yaji mam namaskuru, ou pelo menos mostre respeito a Mim. Tenha certeza que você vai entrar em Mim, vir a Mim. Mam evaisyasi, você virá a Mim exclusivamente; satyam te, isso é a verdade, pratijane, Eu prometo a você. Priyo 'si me, você é Meu favorito. A verdade é a seguinte: Faça tudo para Mim, sirva-Me, pense sempre em Mim e com certeza você virá a Mim. Esta é a simples verdade".

Essa mentalidade, a vida de compromisso, é a atração por Ele. Como desenvolvemos a atração por Krsna? Nós a obtemos do devoto. Podemos obtê-la superficialmente das escrituras, mas substancialmente só do devoto.

Há uma atração específica dentro do coração deles, dentro do esforço deles, que penetra em todas as atividades deles, e isso é algo divino. É isso o que nós queremos. É o sutil do mais sutil, a estrutura nervosa interna. Ela pode mover o corpo. Pode ajudar o corpo a funcionar. Nós ficamos atraídos à energia interior do devoto; aquilo que faz ele fazer o que não se encontra neste mundo; nenhuma atração por prazer sensual, nenhuma atração por fama, nome, ou dinheiro.

Tem algo aí; atração por Krsna. Nós devemos seguir a sua orientação. "Aquele que vem a Me servir diretamente, ele não é Meu devoto verdadeiro. Mas aquele que tem devoção por Meu devoto, ele é Meu devoto verdadeiro". O que significa? Vaisnava-seva, guru-seva, nama-seva; serviço aos devotos, ao mestre espiritual, e ao Santo Nome. "Seu amor por Mim é tão intenso que onde quer que ele ache qualquer conexão externa Comigo, ocupa-se totalmente aí".

 
 

O Verdadeiro Progresso é o Progresso da Alma

Srila Bhakti Raksaka Sridhar Dev Goswami Maharaja

Nós temos que abandonar o indesejável, a cobertura corpórea. Isso não é a alma certa. Morrer para viver. Morrer quer dizer abandonar o ego, e surgirá um magnífico eu interior. "Morrer para viver" significa matar o que somos agora. Devemos morrer a nossa personalidade presente. O velho conceito sobre nós mesmos é completamente falso. Temos que ter um novo nascimento. Aí vamos descobrir que nosso eu verdadeiro está nesse plano de imortalidade. Morrer primeiro. Mas depois no outro lado é nascimento, vida de verdade. Temos que eliminar primeiro a porção inferior; eliminar todos os enganos desta vida.

Por volta de 1934 durante a época de Prabhupada, conversei com um senhor em Kutan. Ele era seguidor de uma grande missão. Eles tinham grandes cartazes para o "Seva Asrama", e outras coisas de grande porte. Mas qualquer auditor que fosse lá poderia provar que eles estavam falidos. Eles não tinham nenhum capital, era uma coisa falsa, uma farsa. Não tinha nem riqueza nem bem-estar social. Eles não tinham nenhuma realidade para distribuir às pessoas. Eles eram uma fraude, mayavada. Eles davam uma dieta nociva aos pacientes, uma dieta insalubre; esse era o negócio deles.

Onde está o paciente? O paciente está dentro. A alma é o paciente. E eles ajudavam o corpo, independente do interesse da alma. Eles serviam ao corpo sem levar em conta o interesse da alma. E com essa ajuda arbitrária, o corpo vai mais e mais contra o interesse da alma.

Nós geralmente não organizamos nenhuma ajuda para os gundas (ladrões). Organizamos ajuda para estudantes, trabalhadores sociais, mas nunca para os gundas que são desorientados. Geralmente, todos os seres são desorientados; eles vivem a vida do descarado. Dar ajuda indiscriminada a eles sem mudar sua direção, é impulsioná-los para o inferno. Esse não é o objetivo correto, impulsionar para esse lado, para o perigo. A ajuda indiscriminada neste plano não ajuda em nada.

A pessoa tem que ter primeiro sambandha jñana, uma boa direção, o conceito correto do destino certo. Aí a ajuda terá alguma utilidade. De outro modo, sem a direção correta, é só capricho. Um impulso caprichoso não pode ajudar ninguém no caminho do progresso. Não é progresso verdadeiro.

Um senhor me disse certa vez em Madras, "Primeiro ajude os pacientes a manter o corpo e alma juntos. Depois você pode falar a eles sobre a verdade, sobre Hari, sobre consciência de Krsna. Se ele morrer, para quem você vai falar"? Eu respondi, "Suponha que haja fome e eu distribuo alguma comida. Há tantos a meu redor, para obter o alimento que distribuo. Alguém sai fora desse lugar. Será que devemos parar a distribuição de alimento e correr atrás dele? Ou devemos continuar a distribuição de comida para tantos outros? Será que devemos parar a distribuição e ir atrás dele? Há tantos seres vivos, e alguns morrem. Por isso que não devo correr atrás dos que morrem para trazê-los de volta ao corpo, e parar a minha distribuição de néctar para tantos. É desse jeito".

O que eles concebem como verdade é inverdade na real. Além do mais, o método que eles aceitam para ajudar outros é muito errado. É completamente errado. Eles não têm um diagnóstico verdadeiro, mas se ocupam intensamente em dar tratamentos e dietas. O diagnóstico é o mais importante. O que está errado conosco, qual deve ser nosso interesse, o supra-sumo da vida; isso deve ser definido primeiro. A questão da ajuda vem depois. A ajuda está disponível ou não, onde está a garantia? Como devemos definir o que é útil e o que não é útil?

O progresso tem que prosseguir na direção certa. E qual é a direção certa? Exploração máxima, exploração hábil, exploração irregular e exploração regular, isso é karma. E renúncia, jñana, é a coisa oposta. Exploração e renúncia; dois opostos. Mas deve-se achar uma terceira direção para conciliar todas as contradições.

Realidade é algo mais. Tad viddhi pranipatena pariprasnena sevaya upadeksyanti te jñanam jñaninas tattva-darsinah (Gita 4.34). "Tente saber a verdade somente por se aproximar de um mestre espiritual. Pergunte a ele com submissão e preste-lhe serviço. O ser auto-realizado pode dar o conhecimento pois ele vê a verdade".

 
 


Os tolos caminham nos lugares onde os anjos temem pisar

Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Gosvami Maharaj

Transcrito de uma conversa informal na Sri Caitanya Saraswat Math de Nabadwip em 13 de Março de 1981.

“Guru Maharaj, Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, pregou exclusivamente Madhurya-rasa, mas com grande cuidado. Não só isso: ele talvez tenha utilizado 90% de sua energia para apontar o lado negativo -“isto não é Madhurya-rasa” - e esclarecê-lo. Em suas próprias palavras, ele precisou gastar ‘litros de sangue’, para explicar o que não é Madhurya-rasa”.

Pergunta: Está descrito no Brahma-Samhita que Sri Sri Radha-Krsna estão sentados em um trono Divino, e a guirlanda de flor-de-lótus sobre a qual Eles estão sentados é descrita como sendo hexagonal. O que simboliza a figura hexagonal?

Guru Maharaja: Perdão, mas não podemos entrar na discussão sobre esta Lila de Radha-Krsna, que ocupa posição tão sutil e superior. Tal discussão não deve ser trazida a público. É esta a diferença entre a Gaudya Math e as sahajiyas. As sahajiyas tentam imitar todas estas coisas, mas nós não acreditamos em imitações. A Lila superior virá individualmente e despertará de maneira irresistível. Quando a sadhana chegar ao final, virá automática e espontaneamente. É nisto que acreditamos: não devemos conhecer a forma primeiro para depois alcançá-la. Este não é o procedimento aceito por Guru Maharaja, Prabhupada:

pujala ragha-patha gaurava-bhange

Srila Bhaktivinoda Takura também disse: “Siga as regras estabelecidas pela escola à qual você está adaptado, e então verá automaticamente”

yatha yatha gaura padaravinde
vindeta bhaktim krta- punya-rasih
tatha tathosarpati hrdy akasmad
radha-padambhoja-sudhanbu-rasi
(Sri Caitanya Candramrta, 88)

Siga estritamente Gaura Lila, Mahaprabhu, e você sentirá, automaticamente, que dentro do seu coração Radha-Rasa-Sudhanidi está fluindo. Não busque diretamente obtê-lo. Virá automática e espontaneamente. Não tente se aproximar pelo intelecto, pois isto trará sérios problemas. Não apenas isso: será muito prejudicial, e você terá que despender muita energia para remover a camada de mal-entendidos. Nosso Srila Prabhupada não autorizava essas coisas. Faça a sua parte, de acordo com o que te cabe, e então, virá naturalmente. Esta foi sua mensagem o tempo todo, não apenas temporariamente, mas o tempo todo. Não faça o contrário, senão você obterá maya, em vez de yogamaya.

Srila Prabhupada ficaria muito descontente – descontente se soubesse que alguém está bisbilhotando as Lilas superiores nestes livros. Ele não gostava disso.

Ele sabe perfeitamente bem. Ela sabe perfeitamente bem quando você poderá ser levado à área confidencial, o que não pode acontecer de nenhuma outra maneira senão pela doce vontade d’Ele – pelo fluir da doce vontade d’Ela ou d’Ele. Tente deixar as coisas seguirem seu rumo natural, sem imitação e sem reflexão. Reflexão e imitação, estes dois tipos de erro podem surgir. Reflexão é o mais perigoso. É como está constatado Harinam. Este tipo de tentação pode aparecer em nosso caminho, mas não devemos acreditar que tudo virá por meio de nosso esforço intelectual.

acintya khalu ye bhava
na tams tarkena yojayet

É inconcebível, não ponha sob o comando da razão. Quando te for permitido apenas dar uma espiada lá para dentro, ficará atordoado.
na tams tarkena yojayet

Não tente levar para o campo da razão. É algo que possui autonomia em sua natureza: pode surgir de uma forma para você, e de outra forma para outra pessoa. É muito esplendoroso e livre em sua natureza. É infinito. Na verdade, o Infinito é a origem destes passatempos. Prepare-se sempre. Busque. Mas não faça deles um objeto de sua experiência.
Quando Mahaprabhu falou das Lilas superiores, era como se Ele estivesse num transe. Como num transe Ele descreveu Sua maravilhosa experiência de Krsna-Lila. Muitas vezes encontramos este tipo de Lila – os mais elevados Passatempos de Krsna – sendo descritos pelo próprio Mahaprabhu: Govardhana-Lila ou Jalakeli-Lila quando Ele, inconsciente, se atira no oceano e durante horas é carregado pelas ondas, desde Chakra-thirta até Swargadwar. Ele descreveu jalakeli de Krsna. Também em Chatak-Parvat – não há fim para Suas Lilas. Quando Seu corpo ficou feito uma abóbora, Ele também descreveu uma Lila, mas a natureza desta descrição não se transpõe para livros. Não há como colocá-la em preto e branco. É grandiosa. Portanto, freqüentemente somos advertidos: “Não tente. Virá automaticamente. Prossiga com o programa recomendado no Sastra e pelo Guru, e virá. Se você tiver tal sorte, então, alcançará. Não é uma experiência comum que pode ser dada a este ou aquele. Não é desta forma que devemos lidar”.
Yatha-yatha gaura-padaravinde

Direcione total atenção para o Gaura-Lila e então virá automaticamente de dentro de você. De maneira indireta, descerá do plano superior até você. Quando Lhe for da vontade, descerá por algum tempo para que o experimente, e você ficará simplesmente atordoado: “O que é isso!” E mesmo depois que tiver se retirado, você não terá o que lamentar. É algo vivo. Tente alcançar o todo: não temos parâmetros. É algo muito superior! Algo muito superior!
Já é muito difícil conhecer a conduta de um homem comum com relação a seus amigos íntimos. Assim também com os Passatempos do Senhor Supremo. Como poderíamos ousar entrar neste âmbito, principalmente em público? Não é possível. Podemos dar alguma descrição das coisas externas, mas não da coisa real. Não vamos nos aventurar a entrar neste ponto.

Pergunta: Pode-se descrever algo mais geral, como a flor-de-lótus?

Srila Guru Maharaja: A flor-de-lótus representa a idéia de beleza, delicadeza, e coisas assim. E as diferentes pétalas representam os diferentes níveis de rasam. De algum modo podemos entender – beleza, delicadeza. Mas nenhuma idéia mundana deve ser aplicada a estes termos: apenas uma distante semelhança. Uma diferença categórica sempre estará presente.

Leitura restrita

Também não estamos autorizados, por nosso Mestre, a ler os livros onde os Passatempos mais elevados estão descritos: Govinda-Lilamrtam, nem Stava-Kusumanjali, nem Ujjvala-nilamani. Ele não nos autoriza a estudá-los e nem a discuti-los. Ou melhor, ele ficaria muito descontente – descontente, se soubesse que alguém está bisbilhotando as Lilas Superiores nestes livros. Ele não gostava disso.
Dhusta-phala karibe arijana:

Srila Bhaktivinod Takura adverte que se alguém se aventurar a transpor a linha, só vai obter maus resultados. Um efeito ruim se dará. Aparadha. Da posição mais baixa, anartha, são mostrados os passos: sraddha, sadhu-sanga, sravan, kirtan, e então, anartha-nivrtti. Todas as coisas ruins desaparecerão de uma vez. Então, ruci, asakti e bhava-bhakti – o nascer da devoção verdadeira. E então, prema-bhakti, e sneha , mana, pranaya, raga, anuraga, bhava, maha-bhava. Por esses passos, poderemos chegar até lá. “Oh, ele tem duas vidas: ele é casado com Krsna e ‘ela’ teve um filho.”

Uma vez Prabhupada fez uma observação, embora eu não saiba como você vai entender isso: um cavalheiro, naturalmente, um senhor, quis discutir tais questões confidenciais com Prabhupada. Ele estava dando importância demais a isto e, por fim, deixou a associação com Prabhupada e foi viver uma vida reclusa. Antes disso, este cavalheiro tinha prestado muito serviço ao Movimento. Então, Prabhupada observou: “Oh, ele tem duas vidas. Ele é casado com Krsna, e ela teve um filho.” Tal observação era a de que ele era um homem, mas tomando a si mesmo por uma Gopi, ele queria imitar a vida das Gopis – contato próximo com Krsna e as Gopis. Isto ele queria intensamente, mas Prabhupada observou-o da seguinte maneira: ele se transformou numa moça, uma Gopi, e depois de entrar em contato com Krsna, ela gerou uma criança!”

Em certa ocasião, o Guru Maharaj de Prabhupada, Srila Goura-Ksora Babaji, estava morando em uma cabana perto do Ganges. Um outro discípulo de Prabhupada, deixando-o, saiu para imitar seu Gurudeva, Goura Ksora Babaji: construiu uma cabana nas proximidades do Ganges e passou a imitar seus bhajans, Harinam, a discussão de Narottama Takura – tudo isso – e a observar estritamente vairagyam em sua vida física. Então, um dia, Goura Ksora Babaji observou que apenas o fato de entrar numa sala de parto e imitar a dor de dar à luz uma criança, não vai fazer com que uma criança nasça só pela imitação do som. É necessário que muitos eventos importantes aconteçam previamente e, então, a criança nasce. A simples imitação não vai dar à luz uma criança. Foi esta a observação que Prabhupada fez sobre o cavalheiro.

Bondade Pura

Então, Suddha-sattva, bondade pura, você primeiro tem que entrar em contato com o que é chamado de suddha-sattva. Visuddha-sattva, o mundo de nirguna. Suddha-sattva quer dizer nirguna. Você tem que conectar nirguna. Só então poderá tentar se aproximar dos eventos sutis que aí se dão, mas não para satisfazer sua curiosidade. “Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar”. É com este espírito que devemos nos aproximar da coisa como um todo. Por outro lado, pelo amor de Deus, não devemos desacreditar achando que “primeiro vou analisar tudo até o último detalhe, depois vou aceitar o que você está dizendo”.

Sua atenção estava sempre voltada para a base, e o fruto virá por si mesmo.

Existem muitas coisas abaixo, mas a atração e a justiça do plano superior já são suficientes para convencer a pessoa a vir para este lado. E as Lilas superiores devem ser deixadas bem acima de sua cabeça. Devemos lidar muito cautelosamente com estas Lilas, especialmente, com Madhurya-lila.

Outro dia mesmo eu estava pensando: mais ou menos um ano após se engajar na Missão, Prabhupada agendou pregações em Vrndavana durante todo o mês de Kartik. Ele pediu ao Maharaja (naquela época, Bharati Maharaja) para discorrer sobre o Sétimo Canto do Bhagavatan: a história de Prahlada, não a história de Krsna, Radha-Krsna, Yasoda ou coisas sobre Vrndavana, mas sim pregar sobre suddha-bhakti de Prahlada primeiro. “Eles estão enraizados em sahajiya. Faça apenas com que entendam isto: ‘Entrem no plano de Bhakti; falar sobre Krsna-Lila é algo que está muito, mas muito acima’.” Então as pessoas em Vrndavana se perguntavam: “O que é isso? Eles estão explicando o Bhagavatam, mas estão deixando de lado o Décimo Canto e explicando o Sétimo Canto, a Prahlad-Lila, o menor aspecto de Bhakti. Isto é ao mesmo tempo maravilhoso e estranho.”

Mais tarde vim a descobrir que Srila Prabhupada deu uma palestra na fronteira de Radha Kunda e Shyama Kunda. Há uma linha divisória entre estes dois lugares. Lá ele passou alguns dias explicando isto. Leu e explicou o Upadesamrtam de Srila Rupa Gosvami. Ele não discorreu sobre Srimati Radharani e nem sobre Krsna, mas sim sobre o Upadesamrtam: a base. Sua atenção estava sempre voltada para a base; o fruto nascerá por si mesmo. “Jogue água na raiz, jogue água na raiz, e o fruto nascerá por si mesmo”.

Ele explicou isso enquanto estava entre Radha Kunda e Shyama Kunda. Explicou não só o Bhagavatam, mas também o Upadesamrtam. Upadesamrtam é a substância de Mahaprabhu, e a linguagem de Rupa Gosvami.

Vaco vegam manasah krodha-vegam
Jiva vegam yo visaheta dhirah
Sarvam apimam prthivim sa sisyat

E o último sloka:

Krsnasyochair pranaya-vasatih preyasibhyo’pi
radhakundam casya munibhir abhitas tadrg eva vyadhayi
yat prestair apy alam asulabham kim punar bhakti-bhajam
tat premedam sakrd api sarah snatur aviskaroti

Estes foram os tópicos explicados por Prabhupada e não o Govinda-Lilamrtam ou o Sri Krishna Bhavanamrta de Visvanatha Chakravarti – tais coisas não foram mencionadas. Nosso treinamento seguia esta linha.

Pujala raga-patha gaurava bhange

Temos que ter em nossas cabeças que o objetivo de nossa vida, vida após vida, não pode ser interrompido. Temos que alimentar a esperança, a pura esperança de que um dia seremos levados a este campo. É esta a idéia.

Pergunta: Às vezes no Sri Caitanya Caritamrta, Srila Krsna D

as Kaviraj Gosvami menciona o Govinda-Lilamrtam, Ujjvala Nilamani e outros trabalhos também considerados confidenciais . Como devemos entender isto?

Srila Guru Maharaja: Existem três capítulos do Caitanya Caritamrta nos quais, geralmente, não estamos autorizados a entrar, incluindo, até certo ponto, as discussões com Ramananda Raya . Onde é mencionada a Lila de Radha-Govinda, não temos que entrar nesta Lila. Claro que enquanto se dá o parayan (canto seqüenciado de todo o livro), temos que continuar cantando, mas sem dar particular atenção às Lilas pertencentes a uma raga de ordem superior. Isto era proibido: “Não tente entrar em detalhes aqui. Quando chegar o momento, virá automaticamente. Não leve isto a uma discussão pública. Não leve até os olhos do público”

Tanto que um dia o seguinte incidente aconteceu em Vrndavana: Prabhupada tinha um amigo de infância lá, um advogado, que lhe tinha feito uma visita. Prabhupada, então, foi retribuir a visita deste amigo. Sripad Paramahamsa Maharaja estava com Prabhupada, e os dois foram juntos fazer esta visita. Ao chegarem, alguém lhes disse: “Ele está lá em cima.” Eles subiram e viram que havia um Gosvami explicando o capítulo de Rasa-Lila do Srimad-Bhagavatam. Então Prabhupada simplesmente abaixou a cabeça e saiu – saiu imediatamente. Seu amigo desceu atrás dele, deixando a discussão de Rasa-Lila, e disse-lhe: “Sim, a preleção sobre Rasa-Lila está acontecendo e você não se acomodou para assisti-la. Você simplesmente curvou a cabeça e desceu. Qual o problema?” Ao que Srila Prabhupada respondeu: “Esta é a ordem de nosso Guru: ‘se você assistir à preleção sobre Rasa-Lila, estará cometendo ofensa’. Seria ofensa se eu assistisse à preleção de Rasa-Lila, por isso tive que descer. Esta é a ordem de meu Guru. Assistir à preleção de Rasa-Lila é aparadha.”

A vontade de Gurudev

Foi este procedimento restrito que ele nos ensinou. Nós também fazemos isso, e eu em particular. Em muitos lugares eles mostram Rasa-Lila utilizando bonecos, mas eu nunca faço isso. Seguindo o que, em meu entender, é a verdade contida na vontade e nas palavras de meu Gurudev, não faço nenhuma exibição de Jhulana-Lila ou Rasa-Lila, e de nada deste tipo. Em meu coração, sei que este não era o desejo de meu Guru Maharaj. Mas, atualmente, vejo isto acontecendo em muitas Maths; também ouço falar que estão fazendo este tipo de coisa, mas eu me abstenho estritamente de tal sorte de exibição. Jhulana-Lila, Rasa-Lila. Isto é muito elevado para nós, eu constatei. Se eu quero a minha realização em vez de uma posição de popularidade, então tenho que ser fiel às palavras que ouvi de meu Gurudev. Atrair pessoas com tais exibições, ganhar dinheiro, ou formar um campo favorável para a pregação – eles podem agir assim, mas eu não. Não quero popularidade e nem quero me colocar na posição de um Acarya superior. Sou um aluno. Ainda sou um aluno. Me considero um aluno. Um aluno fiel. Faço o meu melhor para seguir o que foi dito por meu Gurudev, para me manter na postura que aprendi com ele. Não vou mutilar seus ensinamentos para atender a meus propósitos. Tento não fazer isso. Claro que estes outros, para fazerem uma grande propaganda, devem tomar caminhos diferentes, e é assim que eles pensam. Eles estão livres agora para fazê-lo. Mas eu não sou um dos que agem assim – que procedem desta maneira. Eu tento.

Ser reconhecido como sincero

Quando Prabhupada me convidou a ir para o Ocidente, eu simplesmente respondi que não me considerava preparado para ir para o Ocidente: “Não estarei apto a ser bem-sucedido lá”. E mencionei dois motivos. Então alguns sannyasis mostraram preocupação comigo: “O que é isso? Tantas pessoas desejam esta oportunidade. Você está preparado para perder esta chance? Você rejeita a chance de alcançar tal posição: ser um Mestre mundialmente reconhecido? Você não tem esta ambição?” E respondi: “Sim, Maharaja, não ambiciono tal posição. A minha única e humilde ambição é ser reconhecido como um devoto sincero de Mahaprabhu, Sri Caitanya Dev. Não tenho nenhuma outra ambição em minha mente, nem a de me tornar um Mestre mundialmente conhecido, e por aí vai.

Peço pela misericórdia

É assim que sou em minha natureza. Quero a verdade, e espero e peço, pela misericórdia dos Vaisnavas e de todos vocês, que eu não tenha outra ambição que não seja a de ser o mais humilde dos servos do Senhor, e que eu não me perca deste propósito.

Posso me ocupar na menor forma de serviço. Tad dasa-dasa- dasanam dasatvam dehi prabho. A minha fé deve ser tão firme e de tal qualidade, que a menor oferta de Seu Serviço, de Serviço Devocional, já deve me satisfazer. Não devo me aventurar a assumir a posição de servo mais elevado. O menor contato que eu estabeleça com a Divindade já é suficiente para que eu prossiga feliz com minha vida. Mahaprabhu diz: “Considere-me apenas como um grão de poeira a Seus pés, Krsna”.
ayi nanda tanuja kinkaram
patitam mam visame bhavambudhau
krpaya tava pada-pankaja-
sthita-dhuli-sadrsam vicintaya

Oh, Nandanandana, filho do Rei Nanda, embora seja eu Seu servo eterno, caí no terrível oceano da existência material, devido aos frutos de minhas próprias ações (karma). Por misericórdia, considere-me um grão de poeira a Seus pés de Lótus.

Este deve ser nosso exemplo: “Considere-me um dos grãos de poeira que estão a Seus pés.” Isso já é muito! Nossa fé deve chegar a tal nível que devemos nos sentir satisfeitos em nos tornarmos um grão de poeira a Seus pés. Então, por Sua doce vontade, tudo poderá acontecer. Mas nosso humilde objetivo deve ser mesmo o de obtermos o menor contato que seja, com a Divindade real. Não com um Krsna inventado.

pujala raga-patha gaurava-bhange.

Muito doce. O raga-patha tem que estar na cabeça. Somos servos do raga-patha. Estamos em viddhi-marga, sob as regras dos sastras. Temos que viver e nos mover sob as regras dos sastras, mas sempre com o raga-patha em mente.

Muito descontente

Uma vez, quando Prabhupada estava em Radha-Kunda, aconteceu um incidente. Um panda, em sua preleção fez, à parte, o seguinte comentário: “Somos brahmanas em Vraja. Podemos dar misericórdia a Raghunatha Das Gosvami”. Prabhupada ficou perturbado com aquela observação tão arrogante: “Das Gosvami é o Acarya mais elevado de nossa linha, da linha Gaudyia, e este rapaz diz que está apto a dar misericórdia a Das Gosvami? Tenho de ouvir isso?” Prabhupada interrompeu sua refeição e disse: “ Se eu fosse um babaji comum, eu não me importaria. Apenas sairia daqui. Mas estou aqui como um Acarya. Tenho responsabilidade. Estou aqui na posição de Acarya e por isso devo defender a Sampradaya. Tenho que livrar a Sampradaya da poeira indesejável. Como posso tolerar uma observação dessas contra meu Guru?” E deixou a comida de lado: “Até que me dêem pratikar (alguma reparação plausível e aceitável; desculpa), não vou me alimentar. Não posso me alimentar.”

Isto é a realidade

Acho que fiz alguma coisa hoje para externar o sentimento do meu Gurudev. Fiz algo hoje para esclarecer a sua posição.

Pujala raga-patha gaurava-banghe – é o suficiente. Tad dasa-dasa- dasanam dasatvam dehi prabho... isto não é figurativo, não é mera poesia. Mahaprabhu diz:

naham vipro na ca nara-patir napi vaisyo na sudro
naham varni na ca grha-patir no vana-stho yatir va
kintu prodyan-nikhila-paramananda-purnamrtabdher
gopi-bharttuh pada-kamalayor dasa-dasanudasah

Não sou um profeta, não sou um rei, não sou um comerciante, ou um trabalhador (brahmana, ksatriya, vaisya, sudra); também não sou um estudante, um chefe de família, um chefe de família renunciado ou um mendicante (brahmacari, ghastra, vanaprastha, sannyasi). Identifico a mim mesmo como o servo do servo do servo dos pés de Lótus de Sri Krishna, o Senhor das Gopis, que é a personificação do (eternamente auto-revelador) oceano nectáreo que transborda com a totalidade do Êxtase Divino.

Estas não são palavras figurativas. Isto é a realidade. Esta é a realidade. Nos sentirmos verdadeiramente importantes é nos sentirmos preparados para o serviço superior. Aqui é preciso muita abnegação, muito desprendimento para que se possa estabelecer um contato de ordem menor que leve ao domínio mais elevado. É preciso muita abnegação para podermos entrar neste plano. Há um plano oculto. E se queremos contatá-lo, temos que fazer o melhor do nosso melhor, e sem pressa. Assim, nos transformaremos, e então poderemos ter uma idéia deste plano onde podemos chegar. A menor sombra de interesse, a menor partícula de ambição, não vão nos levar a nosso objetivo. Este é outro ponto: pratistha. Pratistha é o auto-estabelecimento: ser estável, imortal, invencível. Não é o desapego do ego, mas sim a tendência de auto-preservação: “Devo permanecer. Devo viver.” Mas, se necessário, devo morrer para atender a Krsna.
marobi rakhobi - yo iccha tohara
nitya-dasa prati tuwa adhikara

“Mate-me ou proteja-me, faze como desejares, porque Tu és o Mestre de Seu servo eterno.”

Um soldado suicida! Devo morrer pela causa do país se necessário. Devo me aniquilar. Devo ser aniquilado. “Se preciso for, minha própria existência deve ser aniquilada para satisfazer a Krsna.” Tal temperamento, tal ausência de ego, neste grau, são necessários para encontrarmos aquele plano. Com muita sutileza.
Recebamos as bênçãos de Prabhupada Srila Saraswati Takur. Todas as glórias a Guru e Gauranga. Todas as glórias a Guru e Gauranga.

Enxergando o tesouro

(aos devotos lá reunidos)

Vocês estão me ajudando a tirar de dentro do meu coração muitas coisas bonitas e valiosas. É com a ajuda de vocês que estas antigas recordações estão vindo até mim como novas. Forçosamente relembro estes aprendizados de minha vida pregressa, os quais recebi de meu Gurudev como um tesouro. Tenho novamente a oportunidade de ver este tesouro, oportunidade esta, que me é trazida, pelas recordações daquilo que ouvi aos pés divinos de meu Gurudev. Sinceramente exponho isso a vocês. Dessa maneira.

pujala raga-patha gaurava-bhange

Ele ensinou que não devemos ir morar em Radha-Kunda. Um dia, Swananda Sukhanda Kunja estava perto de Lalita Kunda, onde havia um prédio baixo, de um só andar. Então ele disse: “Um segundo andar é necessário, mas eu não poderei morar lá”. Eu perguntei: “Se o senhor não vai morar no segundo andar, quem irá morar? Por que é necessário que se construa outro andar?”

“Não, você não sabe. Pessoas melhores irão morar lá: Bhaktivinod Thakura, Gaura Ksora Babaji Maharaj. Eles vão morar lá e nós deveremos morar no andar debaixo e prestar serviço a eles”.

Depois ele disse: “Devo ir morar em Govardhana. Radha-Kunda é o lugar mais elevado, é o lugar de nosso Guru Maharaja, a casa de nosso Gurudeva. Eles viverão aqui em contato muito próximo com Lila, mas nós não estamos preparados para viver aqui. Devemos morar em Govardhana, só um pouco mais afastado. Temos que estar por perto porque teremos que vir aqui para servir a nosso Gurudev, mas não devemos viver em contato muito próximo com eles. Não estamos preparados para isso.

pujala raga-patha gaurava-bhange

Todo o teor de sua vida foi este: “Isto é elevado. Elevado. E é de baixo que devemos reverenciá-lo”. Temos que estabelecer no mundo inteiro esta postura: o devido respeito à Lila superior: “Isto é muito elevado”.

Um dia em Alahabad – foi este, talvez, o ano exato em que Sripad Swami Maharaj foi iniciado – enquanto fazia palestra em um parque, Srila Saraswati Prabhupada disse: “Estou desafiando a quem quer que seja a lutar comigo para provar que a posição mais elevada é ocupada por meu Gurudev, por Srila Bhaktivinod Thakura e por Mahaprabhu. Deixe que qualquer um venha lutar comigo para decidirmos. Estou pronto. Estou pronto a desafiar a toda e qualquer pessoa. Deixe-os vir lutar comigo. Estou pronto a colocar o trono no lugar mais elevado: meu Gurudeva.”

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“Guru Maharaj, Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, pregou exclusivamente Madhurya-rasa, mas com grande cuidado. Não só isso: ele talvez tenha utilizado 90% de sua energia para apontar o lado negativo -“isto não é Madhurya-rasa” - e esclarecê-lo. Em suas próprias palavras, ele precisou gastar ‘litros de sangue’, para explicar o que não é Madhurya-rasa”.